Right Track #8 Bon Jovi vs. (500) Days of Summer

 

Nesta seção vamos disponibilizar wallpapers bacanudos de clássicos do cinema revisitados por clássicos da música. Sempre uma bela sacada (ou não). Veja o que preparamos, baixe, use e, se tiver uma bela ideia, não deixe de enviar nos comentários!

 

Nesta edição: This Ain’t A Love Song, Bon Jovi

 

No começo do filme “(500) Days of Summer”, de 2009 – “500 Dias Com Ela”, na tradução porca para o português – o narrador diz, e isso não é spoiler nenhum, que o filme que você vai assistir é a história de um garoto que encontra a garota, mas não é uma história de amor.

Assim como na música do Bon Jovi – que não por acaso, vem a ser uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos -, o personagem central da história se ferra porque não viu o relacionamento ir para o buraco. Se viu o filme, vai conseguir fazer a relação perfeita entre esse filme e a música do post (este é um caso de bela sacada, modéstia a parte).
Se não viu, pode ver sem medo de parecer um maricas, afinal, a Zooey tá lá, pessoal, no auge. Enjoy!

O fenômeno da Exaltarepetição, parte II

O leitor do Não Toco Raul há de desculpar pela insistência, mas o fenômeno da Exaltarepetição persiste mesmo após o final da banda. Em 26 de novembro de 2012, publicamos um estudo que concluía que, em 25 anos de carreira, o Exaltasamba registrou 237 músicas em 15 álbuns, entre as quais 50 começavam e terminavam com o mesmo verso/frase/palavra/vocalização. As carreiras solos de Thiaguinho e Péricles, cantores do grupo de pagode, seguem a mesma Fórmula Musical, dando sequência à tradição.

Ambos lançaram álbum ao vivo pouco mais de um ano depois do final do Exaltasamba, em junho de 2011 – o último show foi feito em fevereiro de 2012. Péricles foi o primeiro, com Sensações, em outubro. Em novembro saiu o de Thiaguinho, Ousadia & Alegria. Com o Exalta, a taxa de uso desta fórmula era de 21%. Thiaguinho elevou-a ainda mais, chegando a 42,8% – nove das 21 músicas do cd novo começam e terminam com as mesmas palavras. Péricles praticamente manteve a média, com 28,5% em seu álbum – são seis, em 21 gravadas.

A diferença pode ser explicada no fato de Thiaguinho fazer muitas vocalizações, enquanto que Péricles quase não as usa. De modo geral, o pagode do primeiro é mais agitado, e o título do álbum reflete bem o espírito e a levada das músicas. Já Péricles faz um som de mais “classe”, lembrando muito a primeira fase do Exaltasamba, quando Chrigor dividia com ele os vocais. Mais uma vez, o NTR não faz juízo de valor pela fórmula musical: é apenas uma característica interessante adotada por esses pagodeiros.

Nenhum dos dois álbuns difere tanto do trabalho conjunto no Exaltasamba, o que faz retomar a pergunta: por que o grupo se separou? Segundo Thiaguinho, sua saída já havia sido definida no início de 2011, em reunião com a banda, quando afirmou que gostaria de fazer carreira solo. Depois, Péricles manifestou o mesmo desejo. Quando anunciaram a separação, ao vivo no Domingão do Faustão, da Rede Globo, o discurso foi de que cada um gostaria de investir no trabalho paralelo.

Até o momento, nenhum dos outros integrantes divulgou qualquer projeto. Perguntado por Faustão na ocasião, Brilhantina não escondeu o descontentamento: “Eu, sinceramente, fiquei bastante abalado, mas é a decisão que o grupo tomou e é isso que vai ser… vamos ver o que vai acontecer”. O que já aconteceu, por enquanto, não é tão diferente do que já vinha acontecendo, pelo menos musicalmente. Definitivamente, os fãs do Exaltasamba não estão órfãos. Mesmo separados, as cantores continuam começando e terminando as músicas com o mesmo verso/frase/palavra/vocalização.

Thiaguinho – Ousadia & Alegria (2012)

Música: Buquê de Flores
Verso: “Eu tava pensativo então fui no pagodinho pra te encontrar/Peguei meu cavaquinho fiz um samba bonitinho pra te ver sambar, vem”

Música: Ousadia & Alegria
Verso: “Chego chegando, beijo no canto da boca”

Música: Desencana
Verso: Vocalização – “Lalalaiá”

Música: Ainda bem
Verso: “Ainda bem”

Música: Deixa eu te fazer feliz
Verso: “Deixa eu te fazer feliz”

Música: Eu quero é ser feliz
Verso: “Hoje eu acordei com vontade de cantar pagode”

Música: Tomara
Verso: Vocalização – “êiêiêiê”

Música: Motel
Verso: Vocalização – “Lalaiá Laiá”

Música: Deixa pra mim
Verso: Vocalização – “Êêêêêê”

Péricles – Sensações (2012)

Música: Pedaços
Verso: “Um pedaço de emoção”

Música: Supra Sumo do Amor
Verso: Vocalização – “Ôôôôôô”

Música: Leito de estrelas
Verso: “Te levei pro céu”

Música: Oyá
Verso: “Oyá”

Música: Linda Voz
Verso: “Olá, hoje eu te vi pela televisão”

Música: Cuidado cupido
Verso: “Cuidado cupido”

NTR Convida #12 Pedro Gama (The Outside Dog)

 

Toda sexta-feira (toda MESMO, dessa vez é sério), o NTR te traz a seção “NTR Convida”, onde músicos convidados vão ditar o som para você começar o final de semana na pegada.

 
Hoje o convidado é Pedro Gama, frontman da banda de folk, que coloca rock e blues na mistura, The Outside Dog. O paulistano de 24 anos tem uma coleção de referências musicais e uma grande identificação com mestres como Neil Young, Bob Dylan, Tom Petty e Bruce Springsteen. Pedro reuniu composições autobiográficas, sua voz e a intimidade com o violão – um autêntico Gibson de 1967 -, além de banjo, gaita e guitarras para dar corpo, em 2011, ao álbum “The Outside Dog”, produzido por Zeca Leme e masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova Iorque.

O registro em estúdio foi só o começo: ainda em 2011, a banda cresceu e ganhou lirismo, ritmo e vibração com a entrada de Rafael Elfe (guitarra), André Sanches (que já havia tocado baixo no CD), Ciro Jarjura (gaita) e Dmitri Medeiros (bateria). Em 2012, Medeiros saiu e entrou Mateus Polati na bateria.

Atualmente, a banda prepara o lançamento do próximo CD que, segundo Gama, vai apresentar as músicas do estilo em português. No final do ano passado, lançaram o clipe de The Rooster’s Gonna Crow.


As músicas escolhidas pelo Pedro estão no player acima. É só clicar para ouvir todas na sequência!

A playlist:

1) Bruce Springsteen – Born To Run
“Amando ou odiando seus teclados, é primordial reverenciar o chefão do Rock. O cara dá o sangue, o suor e quase 5h de show para o público. Born To Run é um clássico, o ápice da energia que pauta toda sua obra e, pra mim, a maior injeção de adrenalina que um som pode dar para um ser humano. Não é aconselhável dirigir em estradas monitoradas por radar com ela no som!”

2) Neil Young – Old Man
“Meu herói do Rock and Roll! Elétrico ou acústico, Neil Young arrasa e essa faixa ainda me arrepia independente de quantas vezes tenha escutado o Harvest. Posso dizer também que não tenho a menor vergonha de fazer papel de ridículo tentando alcançar aquele agudo!”

3) James Taylor – Fire and Rain
“Perfeição em forma de acordes, letra, voz, melodia e interpretação. Coloque os fones, apague as luzes e não pense duas vezes em colocar no repeat. Essa música deve ser tocada não só com o coração, mas com a experiência que só os anos de vida podem nos trazer. Por isso quanto mais recente a versão, melhor.”

4) Stevie Wonder – Signed, Sealed, Delivered, I’m Yours
“
É preciso dizer algo? Não! É só aumentar o volume.”

5) Phantom, Rocker & Slick – Men Without Shame
“Quando tinha uns 5 anos, meu pai gravou os 2 primeiros minutos dessa música numa fita K7. Levamos 15 anos para descobrir o nome da banda e da música… 6 minutos que sem dúvida alguma compensaram a espera.”

The Outside Dog

Quer conhecer mais?

Photo - Album Cover
The Outside Dog:
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O álbum de 2011 e dois outros singles podem ser baixados no BandCamp da banda. De graça, aproveita!

 
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Azul da cor do mar, a origem

 

Tim Maia estava na merda em 1969. Morava de favor no Rio de Janeiro, dormia em um sofá desconfortável apelidado de “dromedário”, sem dinheiro ou companhia amorosa. Vinha de dois fiascos na tentativa de gravar um compacto de sucesso em São Paulo, um pela CBS e outro pela RGE; nenhuma delas soube mixar o soul pesado do cantor, e o trabalho acabou ignorado pela crítica e pelo público. Voltou ao Rio para uma terceira tentativa, agora pela Polydor, e contou com a ajuda de dois amigos, responsáveis indiretos por um “sonho azul da cor do mar”.

O cantor paraguaio Fábio (que na verdade se chamava Juan Senon Rolón) e seu empresário Glauco Timóteo hospedaram Tim Maia em Botafogo. Os dois viviam bem, faziam muitos shows – Fábio aproveitava o sucesso de “Stella” – e viviam cercados de menininhas, com as quais Tim Maia sonhava em matar a solidão. “Azul da cor do mar”, um dos maiores sucessos do cantor, surgiu a partir desse cenário: com Tim tentando sem sucesso levar a carreira adiante, enquanto os amigos já colhiam os frutos.

Tim Maia havia tentado acompanhar os sucessos dos amigos cantores na adolescência – entre eles estavam Roberto Carlos, Eramos Carlos e Jorge Benjor; morou nos Estados Unidos, onde foi preso várias vezes até ser deportado; foi a São Paulo tentar a sorte e chegou a passar fome e frio; e, de volta ao Rio, a vida não estava mais fácil. Estava carente, e as gravações de um novo compacto demoravam a sair em meio ao cotidiano disputado do estúdio da Polydor.

Quando Fábio e Glauco viajaram para shows em Salvador e Recife, foi um alívio para Tim Maia poder dormir em um lugar diferente do sofá “dromedário”. Testou a cama de Fábio, mas acabou deitando na de Glauco, onde chamou a atenção, colado na parede, um pôster colorido com uma morena vistosa nua em frente ao mar do Taiti. Ali, Tim compôs uma canção e registrou em um gravador portátil. Tinha uma carga emocional incrível, assim como grande parte de sua extensa obra.

Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir
tenho tanto pra contar
dizer que aprendi
que na vida a gente tem que entender
que um nasce pra sofrer
enquanto o outro ri

tim_mais_vale_tudo
O disco na Polydor, intitulado Tim Maia, saiu em 1970 e virou sucesso no Brasil inteiro muito por conta de “Azul da Cor do Mar”. Não foram só Fábio e Glauco que alimentaram esse sonho. Tim foi contratado pela grande gravadora sem nunca ter sido ouvido por André Midani, presidente da Phillips. Isso ocorreu por conta das indicações dos Mutantes e de Erasmo Carlos. De acordo com a biografia “Vale Tudo”, de Nelson Motta, Tim pesava 85 kg (chegaria a 142 kg em 1996). Tempos depois, passou a viver melhor, alugou um apartamento, engordou e se consolidou como um dos grandes nomes da música nacional.

Mas quem sofre sempre tem que procurar
pelo menos vir achar
razão para viver
ver na vida algum motivo pra sonhar
ter um sonho todo azul
azul da cor do mar…

 

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Saia do modo automático

 
Uma das minhas categorias favoritas do NTR é “A Origem”, onde são apresentadas as histórias por trás da criação de grandes clássicos, aquele tipo de coisa que pouco paramos para pensar quando estamos ouvindo a maioria das músicas. E é uma favorita pois sempre tive interesse na origem de certas músicas, o que o compositor estava pensando, o que estava sentindo, quem foi que fez isso, ou se é verdade ou não.

Acredito que este interesse se deva principalmente a esse fato: eu ouço boa música.

Não vou dizer que TODA música que eu escute seja do nível técnico ou tão marcante e atemporal como a música de Mozart ou Beethoven (argumento típico de haters), mas essencialmente é boa música. Também não pretendo entrar nos méritos do que é bom ou ruim aqui, mas não venha me falar que “gosto não se discute”. Tudo é discutível, dependendo dos interlocutores. O que me obrigo a fazer com a afirmação acima é, no mínimo, justificar-me.

Me baseio exclusivamente em um critério para defender a minha visão sobre a música: repetição.
A repetição, a meu ver, age de duas formas diferentes sobre os músicos e suas músicas. Quando age sobre o músico, de fora para dentro, é uma coisa boa, mas, se acontece o contrário e a repetição tem seu efeito no interior, no conteúdo da música, aí a coisa muda.

A repetição saudável (ou "O esforço dos bravos")

 
Prática, muita prática, aptidão e paixão também, mas eu diria que a prática é um dos principais fatores de sucesso para um musicista. Cantores, guitarristas, bateristas, maestros e até o cara que toca sax de suspensórios, todos tem uma coisa em comum: repetem a mesma nota, os mesmos acordes e os mesmos gestos durante anos, todos os dias, para conseguirem chegar onde desejam na música.

Este lugar desejado pode ser um Grammy de melhor instrumentista de jazz ou apenas conseguir tocar aquele solinho da introdução de Sweet Child O’mine mas, em ambos os casos, a repetição está ali, construindo o caminho e aperfeiçoando e desenvolvendo a técnica e habilidade das pessoas.

Quantas vezes na vida um baterista castiga um bumbo? Quantos aquecimentos de “trrrrrrrrrr” ou “zzzzzzmmm” faz um vocalista? Quantas vezes um guitarrista profissional repete uma escala enquanto estuda? Eu fiz esta última pergunta a um grande amigo, que por acaso vem a ser um dos melhores guitarristas do país, André Nieri. Juntos, fizemos umas contas rápidas. Se liga no resultado.

O André toca violão e guitarra desde os 9 anos de idade. Naquela época, treinava acordes, basicamente, durante cerca de 2 ou 3 horas por dia. Hoje, com 26 anos, passa a maior parte do dia com um violão ou uma guitarra a tiracolo. Podemos dizer que, na média, durante os 17 anos de música o André tocou 6 horas diariamente, contando sábados e domingos. Ok, com 6 horas diárias durante os 17 anos de música, foram tocadas um total aproximado de 36.720 horas. Essas horas, se divididas em dias, nos dão algo em torno de impressionantes 4 anos ininterruptos tocando.

Se quiser tocar assim algum dia, pare de ler e vá praticar, agora.

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Existem casos em que uma repetição bem utilizada transforma faz bem às músicas, transformando-as em uma espécie de hino, quase que um mantra. Um cara que sabe utilizar este artifício com maestria em suas letras é o cantor/guitarrista John Mayer. É difícil uma música de John que não tenha ao menos uma frase repetida cerca de 10 vezes, geralmente o refrão, atingindo picos, por exemplo, em Half Of My Heart, onde a frase título é repetida 25 vezes (até terminar em fade-out) durante os 4 minutos da música.

A partir de agora repare nisso, John Mayer repete muito, mas como tudo tem um sentido e um propósito dentro de cada canção, isso passa despercebido e acaba se tornando uma coisa boa.


 

A repetição prejudicial (ou "Ai, se eu te pego")

 
O ser humano civilizado precisa da repetição. O homem se sente confortável e seguro na sua rotina e a repetição dos mesmos hábitos, dia após dia, faz com que a percepção deste homem seja prejudicada. Vou explicar, dá um play aí embaixo, enquanto isso.

Ernold Same by Blur on Grooveshark
Se você entende um pouco inglês e ouviu a música acima, entendeu a estória, mas, se não entende, pelo menos percebeu que muitas vezes foi utilizada a palavra “same“, que quer dizer “mesmo”.

O personagem ironizado na música do Blur, Ernold Same, vive a mesma vidinha todos os dias. Todos os dias acorda do mesmo sonho na mesma cama, toma o mesmo café, pega o mesmo trem a caminho do mesmo lugar para fazer a mesma coisa de novo e de novo. Pobre Ernold. Você desejaria nunca ser o Ernold, certo? Má notícia: se você tem um emprego e segue uma rotina, você é Ernold e nada vai ser diferente amanhã. Triste, não? Pois é. Dias e ações repetitivas regem a nossa vida civilizada e essa normalidade é muito louca, se formos parar para pensar.

Dirigir, por exemplo, é uma ação extremamente complexa, ainda mais nos dias de hoje, onde centenas de milhares de pessoas fazem isso ao mesmo tempo passando pelos mesmos lugares. Se você parar para pensar na complexidade que é movimentar as duas pernas e os dois braços para direções diferentes, dividir a sua atenção entre os sons do motor e dos outros carros, pontos cegos, outros motoristas, pedestres, motos e tudo que você tem para fazer no trabalho dali a 30 minutos… me parece mais tranquilo tocar bateria no Rush.

Tudo isso é muito complexo, tanto que conheço pessoas que foram reprovadas 4 vezes na prova da baliza, mas através da repetição nos acostumamos e paramos de pensar, entramos em modo automático. Em modo automático nos tornamos seres imbecis que, mesmo diante da complexidade que acabei de descrever, se metem a fazer tudo aquilo enquanto digitam um SMS totalmente dispensável. Que beleza.

A repetição é prejudicial quando nos torna esses seres que não pensam mais no que estão fazendo, nem no porquê estão fazendo alguma coisa, e este, na minha opinião, é o maior trunfo das músicas que fazem sucesso com as grandes massas. As pessoas estão acostumadas a pegarem a rota mais curta mesmo sabendo do congestionamento, a escolherem o PF porque já vem pronto e a consumirem música porque é o que toca na TV.

Sucessos dos ritmos que mais vendem, como o sertanejo, o axé e tantos outros que seguem essa fórmula do repetitivo chiclete, se aproveitam da preguiça da maioria, da falta de espaço que a boa música tem na grande mídia e, principalmente, de todo o foco disperdiçado do brasileiro. É tanto tempo gasto com futebol, novela e carnaval, que fica muito fácil para os “universitários” que ganham milhões emplacaram sucesso atrás de sucesso, com propaganda em dancinhas de jogadores de futebol ou pagando um tema de novela aqui e outro ali. Para entender melhor, leia sobre o Fenômeno da Exaltarepetição.

Não estou querendo que todos parem de ouvir os sucessos da Transamérica, nem dizendo que isso faz de você uma pessoa pior e de mim uma pessoa melhor. Há, é claro, lugar para essa categoria de música. Duvido, por mais que eu goste de rock, que um churrasco ou festa com amigos seria animado ao som de Radiohead ou The Smiths, por exemplo.

Sempre vão existir lugares e situações que pedem os ritmos rápidos e repetitivos, onde aquela coletânea do É O Tchan é melhor aceita do que o Nevermind do Nirvana, mas é aí que eu faço meu ponto. Esse tipo de música é aceita por todas as pessoas (incluindo os mais radicais) somente nestas situações específicas, onde você não vai parar para ouvir letra ou melodia, onde sua atenção está voltada para coisas mais importantes, como uma conversa com seus amigos, o nível do estoque de cerveja ou o flerte com um broto.

A gente só precisa sair do automático depois que a festa acabar e a ressaca passar.

Ps. 1: Este texto foi escrito ao som do álbum “The Great Escape”, do Blur.
Ps. 2: Este texto não leva em consideração nenhum tipo de música eletrônica, fato observado após conversa sobre o assunto com um dos músicos convidados do NTR Convida, Guilherme Pires.

 
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NTR Convida #11 Sabine Holler (Jennifer Lo-Fi)

 

Toda sexta-feira (toda MESMO, dessa vez é sério), o NTR te traz a seção “NTR Convida”, onde músicos convidados vão ditar o som para você começar o final de semana na pegada.

 
A convidada desta sexta-feira é Sabine Holler, musicista que canta, compõe e toca guitarra (entre outros instrumentos). Ela faz parte da banda paulistana Jennifer Lo-Fi, que soube usar com muita esperteza as ferramentas da internet para estourar lá pelos idos de 2009. Eles fazem um som lo-fi, como o nome entrega, com muito experimentalismo e psicodelia, aliando guitarras sujas e gritos a melodias mais suaves, viajandonas; e um vocal poderoso e versátil que pode também soar doce com a bonita voz da Sabine. As letras também chamam a atenção, contando histórias bizarras, porém verossímicas (como na canção Troffea, que relata a lenda urbana de histeria coletiva de Estrasburgo), ou soando como um desabafo de agonia e paranoia.

Hoje, o grupo faz parte do catálogo da gravadora Desk, dentro do selo Vigilante. Já lançaram quatro EPs, incluindo o excelente “Noia”, produzido por Chuck Hipolitho – que ganhou uma versão em vinil de alta qualidade no fim do ano passado (e que pode ser comprado pela internet). Eles também têm um álbum maior, gravado ao vivo nos Estúdios Trama, reunindo canções de toda a carreira da banda. Agora, a Jennifer Lo-Fi está gravando um novo EP, que terá quatro músicas e será produzido pelos próprios integrantes. Eles esperam lançar esse material inédito ainda na primeira metade de 2013.

Sabine também faz parte do quarteto Ema Stoned, formado apenas por garotas. O som delas remete bastante ao da Jennifer Lo-Fi, mas parece mais focado no instrumental e traz uma pegada mais post rock e suave. Elas também estão gravando um EP, que será sua estreia e deve sair nos próximos meses. Sabine disse que elas estão trabalhando nestas músicas há um ano, já; e que estão muito ansiosas para gravar e lançar o material. Nessa banda, ela toca guitarra e “dá uma palhinha na voz”, como diz.

Confira abaixo as indicações dela:


As músicas escolhidas pela Sabine estão no player acima. É só clicar para ouvir todas na sequência!

A playlist:

1) Mary Lou Williams – St Martin De Porres
“É uma pianista e compositora americana do começo do século XX. O que impressiona nessa versão é o arranjo vocal deste gospel. Flerta com o soul e o erudito e é uma das musicas mais fantásticas que ja escutei, de arrepiar todos os pelinhos do corpo.”

2) Jeff Buckley – Gunshot Glitter
“Essa musica é um dos “Sketches” do “Sketches for my Sweetheart, the Drunk”, disco póstumo do Jeff Buckley. Sempre amei essa musica desse jeito, completamente lo-fi, ruidosa, gravada no banheiro e o mais introspectiva e sensível possível.”

3) Björk – Joga
“Foi a primeira música que escutei da Björk, numa coletânea de um CDR gravado por algum anônimo que foi parar nas minhas mãos. Eu devia ter uns 14 anos. Entrou dentro de mim e não saiu mais.”

4) The Sound of Animals Fighting – I, The Swan
“
Um super grupo, com super cantores, super letras, super arranjos, super tudo.”

5) Elis Regina (Composição de Fátima Guedes) – Onze Fitas
“A letra é genial e a Elis tambem é.”

Jennifer Lo-Fi

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Cool Covers: I Will Survive

 
Não é apenas uma música sobre superar dificuldades. É um hino feminino (a la Girl Power e também da comunidade gay) sobre juntar os caquinhos depois do término de um relacionamento, erguer a cabeça e seguir em frente. É aliás um hino universal: já foi reproduzido em 20 línguas, inclusive árabe. Um hino premiado: ganhou em 1979 o Grammy de Best Disco Recording, e foi a primeira e última vez que o Grammy premiou essa categoria. É também uma das canções mais populares cantadas em Karaokê.

Apesar de toda a sua aura de canção-espanta-dor-de-cotovelo, I Will Survive originalmente não se tratava de um homem específico na vida Gloria Gaynor. Ela estava muito bem casada quando a gravou. Na verdade, os produtores de Gaynor, Freddie Perren e Dino Fekaris, escreveram a letra para a cantora depois que ela sofreu uma lesão nas costas e ficou seis meses no hospital. Gaynor havia passado por uma cirurgia e ainda usava colete ortopédico quando gravou a música. E é por isso que ela vê essa canção como uma lição de sobrevivência, independentemente do que você tenha que superar: “É uma letra atemporal que aborda uma preocupação atemporal”, disse.

Se você está cantando-a por causa de um coração ou de uma coluna partida, não importa, garanto que quando escuta o pianinho inicial e os primeiro versos At first I was afraid I was petrifiiied você também bate o pézinho, levanta a mão com o microfone imaginário e faz a diva dando a volta por cima no salão enquanto declama o hino – não importa se é a versão original de Gloria Gaynor:

 
A versão indie mais lenta e menos arrasa bee, do Cake:

 
Ou a versão pin up, fofinha, retrô, gal group com The Puppini Sisters:

 

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Bom mesmo era no primeiro disco

 
Quem nunca na vida, ao discutir sobre música, se deparou com algum saudosista e ouviu alguma indigesta afirmação do tipo: “essa banda era legal, depois ficou muito pop”. Nas entrelinhas dessa, bom mesmo era naquele tempo, quando só o saudosista e uma meia dúzia de gatos pingados ouviam. Depois popularizou, tornou-se comercial demais, “puseram umas batidas”. Resumindo, pra ele “virou uma bosta”.

Acontece que que grande parte das maiores bandas da atualidade tiveram mudanças consideráveis na musicalidade ao longo da carreira. Já vi muita gente malhando bandas exatamente pelo motivo citado no primeiro parágrafo. “Ai, bom mesmo era quando o Green Day era punk”. Punk? São contra qualquer tipo de evolução ou amadurecimento que o artista possa ter. O legal pro “saudosista-musichato-meio-hype-meio-alternativo é citar a comercialização. Como se fosse ruim tudo o que é comercializado. E como se fosse um argumento válido.

O Coldplay teve uma evolução vertiginosa, hoje um monstro, uma banda de show impecável. O trabalho de hoje não é o mesmo trabalho de 2000. Progrediu, floresceu, aprendeu. Claro que ninguém vai ser bobinho o suficiente de pensar que isso aconteceu simplesmente pelo fato romântico de eles quererem um trabalho mais maduro. Não, pô! Óbvio que existe também um interesse comercial e toda a parafernália que contém o showbiz. Mas não dá pra falar que ficou pior, independente se massificou ou não.

Eu sou a favor do baião com o rock, o jazz com o dance. Pra outros, parece que o que é bom, é o imutável, o mais-do-mesmo. Ainda na faculdade, recordo de muitos estudantes de música que defendiam com unhas (bem grandes pra tocar violão) e dentes o jazz intocável, o blues puritano. E a bossa nova então? Ai de quem mexesse na queridinha. Ai de quem fizesse uma releitura um pouquinho mais ousada. Tudo bem, poucas coisas contribuíram pra música no Brasil como ela fez. Mas poderíamos ter evoluído muito mais se não houvesse esse engessamento lamentável.

Basta sair do sonzinho cômodo ali para que alguém já comece a choramingar nostalgias. Ás vezes, a impressão que tenho é de que há uma certa preguiça ao tentar compreender a música, a obra, o disco. Ou seria uma certa vaidade, fugindo do que foi popularizado? Ou até uma aversão a um sistema capitalista onde é feio o artista pensar no dinheiro? Mil possibilidades.

Mas sempre vai ter um desse na rodinha do violão, contribuindo para a estagnação.

Gu Sobral é Ilustrador e Diretor de Arte, canta blues na Mr. Brown e 90’s na The Sexy Lobster. Já é velho conhecido aqui no NTR.

 
 
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Não tenha vergonha de ouvir The Pretty Reckless

Algumas bandas despertam um tipo de bullying imediato. É só admitir que gosta para ser zoado. Aquele papo de “guilty pleasure”, sabe? The Pretty Reckless, dos EUA, é um bom exemplo dissoApesar de pouca gente conhecer o grupo, a reação é sempre a mesma: é só começar a explicar que é a banda da Taylor Momsen, aquela loirinha que fez a Jenny Humphfrey no seriado Gossip Girl, que as pessoas imediatamente passam a achar péssimo! Mas não é bem assim. A banda é realmente muito boa e a Taylor sabe cantar de verdade. Tudo bem que existe muita imagem, grana, marketing, produção, pose e a malandragem de usar a fama que conquistou na TV a seu favor. Mas isso tudo não anula seu talento musical.

O Pretty Reckless foi montado em 2009, quando a Taylor tinha só 16 anos e estava cansada de atuar. Ela começou como modelo e atriz aos 2 anos de idade. Além de ter participado de Gossip Girl, ela aparece no filme “O Grinch”, em um monte de comercial dos EUA e quase foi a protagonista da série Hannah Montana, da Disney (justamente porque sabia cantar). Mas perdeu o papel nas seletivas finais pra Miley Cirus (!).

Taylor compõe suas próprias canções e sabe tocar violão e guitarra. Quando apareceu a oportunidade de gravar um disco, a coisa deu certo porque ela arrumou um produtor e músicos MUITO bons, que não tentaram fazer tudo soar pop demais. Todas as canções do Pretty Reckless são assinadas por ela, pelo guitarrista Ben Phillips e pelo produtor Kato Khandwala (que já trabalhou com bandas como Blondie, Paramore e Breaking Benjamin).

Juntando tudo isso ao auge da fama de Momsen, principalmente entre o público adolescente e jovem, deu no que deu: hoje a banda já tem dois EPs e um álbum lançados, já tocou em todos os grandes festivais de música dos EUA e da Europa e fez extensas turnês pelo mundo todo, tendo dividido o palco com o Paramore, o Evanescence, o Marilyn Manson, a Kesha e o Guns’n’Roses (!). Um dos maiores sucessos do grupo, “Make Me Wanna Die”, fez parte da trilha sonora do filme Kick-Ass e de um desfile da grife Victoria’s Secret. A banda também compôs “Only You” para a trilha sonora do filme Frankenweenie, do Tim Burton. Eles vieram tocar no Brasil em agosto de 2012, passando por Curitiba, Rio e São Paulo. Hoje, estão preparando um novo álbum e acabaram de lançar um single muito bom chamado “Kill Me”.

Assisti ao show deles em São Paulo, no HSBC Brasil (antigo Tom Brasil). Os ingressos esgotaram semanas antes do evento e, no dia, a casa estava tão lotada que ficou difícil enxergar o palco direito. A maioria do público eram garotas adolescentes histéricas, que berravam o tempo inteiro, conversavam sem parar, tiravam zilhões de fotos e ficavam constantemente olhando pro celular ao invés do palco – típicas “roqueiras de boutique”. Tanto que, quando a banda tocou um cover de “Like a Stone” (do Audioslave), eu me senti uma tia velha porque era a única que conhecia a música e sabia cantar junto. O Pretty Reckless também fez um cover de “Seven Nation Army”, dos White Stripes, que ficou bem legal. Embora a gritaria e a tietagem tenham sido muito irritantes (em alguns momentos chegaram até cobrir o som da banda completamente!), incluindo um faniquito geral causado pela ilustre presença de Pe Lu e Koba, do Restart, o Pretty Reckless fez um show impecável, provando que são realmente bons ao vivo.

Confira os vídeos abaixo para ter uma ideia de como foi esse show:

Muitos ainda criticam a Taylor pelo seu visual, que mudou drasticamente quando ela comecou a trabalhar oficialmente como musicista. Ela usa roupas e maquiagens bem exageradas, misturando glam, gótico, grunge e punk com plataformas maiores do que as das Spice Girls e tanto lápis de olho que poderia ser confundida com um urso panda. Esse visual se alia a uma exploração também exagerada da sua sensualidade: ela aparece no palco só de lingerie ou com figurinos minúsculos enquanto faz mil poses, dancinhas, caras e bocas. Sem contar os videoclipes, onde surge fazendo tudo isso e ainda fuma, bebe e insinua o uso de drogas. Como a Taylor ainda é muito jovem, isso gera muitas críticas. E, realmente, essa pose toda acaba sim parecendo muita forçação de barra e apelação. Os clipes de “Miss Nothing” e “My Medicine” (minha preferida da banda) são exemplos perfeitos disso:

Mas nem assim o talento musical de Taylor e sua banda são anulados. As canções são boas, as letras têm inteligência e a produção e os músicos são impecáveis. Por isso, meu amigo, não se acanhe! Pode ouvir Pretty Reckless. E pode admitir que achou legal. Sem vergonha!

Top 7,5: Dorgas no róquenrou

 
Sexo, drogas e rock’n’roll. Impossível desmembrar essa antiga tríade que influenciou e ainda influencia tantos músicos. As drogas, aliás, roubam espaço já que são tantas as composições a seu respeito (e sobre seus efeitos) indiretas ou diretamente. Quase que, no quesito musical, nos resta a velha pergunta do ovo e da galinha devido à linha tênue da agressividade/transgressão e autodestruição que o taking drugs to make music to take drugs…  pode levar. Afinal, até quando um sobrevive sem o outro? Ou ainda: até quando um vive com o outro? A relação perigosa entre genialidade e loucura continua no ar e é inegável a participação explícita ou não das substâncias ilícitas em algumas canções. E é sobre ela o nosso Top 7,5:

7. Bob Dylan | Mr. Tambourine Man

 

Bob Dylan, o então poeta norte-americano, já fazia a sua apologia à maconha, mesmo que de forma metafórica, em Mr. Tamborine Man, lançada em 1965 no álbum Bringing It All Back Home. A canção foi escrita em uma viagem que ele fez com amigos de Nova York para São Francisco. Eles fumaram muita marijuana durante o percurso, reabastecendo o suprimento de maconha nos correios, onde haviam enviado potes com a erva ao longo do caminho. A canção tem uma melodia que tornou-se famosa pelo seu imaginário surrealista, influenciada por artistas como o poeta francês Arthur Rimbaud e cineasta italiano Federico Fellini. A letra chama o personagem-título para tocar uma música que o narrador vai seguir, e é interpretada como um hino para as drogas como o LSD. Vale ressaltar que o mesmo Dylan foi quem apresentou a marijuana aos 4 rapazes de Liverpool.

6. The Beatles | Lucy in the Sky with Diamonds

 

Os Beatles têm várias músicas que fazem alusão às drogas como Got To Get You Into My Life e Day Tripper, mas a canção que mais ficou conhecida e mais gerou polêmica, com certeza, foi Lucy in the Sky with Diamonds, gravada em 1967 no álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Apesar de John Lennon jurar de pés juntos que a música nada tem a ver com drogas, já que ele escreveu a letra baseada em um desenho que seu filho Julian fez de sua colega Lucy – o qual explicou ao pai como sendo “Lucy no céu com diamantes” – a canção foi composta já numa fase onde o LSD (ou ácido lisérgico) fazia parte de grandes festas ou simples eventos que o Fab4 frequentava. A atmosfera psicodélica, onírica, surrealista e as imagens de alucinações na canção foram inspiradas pelo capítulo “Lã e água” de Através do espelho, de Lewis Carroll, em que Alice é levada rio abaixo em um barco a remo pela Rainha, que de repente se transforma em um carneiro. Apesar de ser improvável que John tivesse escrito essa fantasia sem nunca ter experimentado alucinógenos, a música foi igualmente afetada pelo seu amor pelo surrealismo, pelos jogos de palavras e pela obra de Carroll.

5. The Rolling Stones | Sister Morphine

 

Os Stones ressaltaram os atributos da morfina em Sister Morphine, lançada no álbum Sticky Fingers, de 1971:

Please, Sister Morphine, turn my nightmares into dreams
Oh, can’t you see I’m fading fast?
And that this shot will be my last

A canção foi escrita por Marianne Faithfull, namorada de Jagger, durante as sessões de gravação de Let It Bleed e é sobre um cara que sofreu um acidente de carro e morreu no hospital suplicando por morfina. Um pouco da letra foi inspirada em Anita Pallenberg, namorada de Keith, que estava hospitalizada e recebendo tratamento com a droga. A composição também foi influenciada pelo Velvet Underground, que na época estava escrevendo várias canções obscuras sobre drogas, especialmente heroína.

 4. Eric Clapton | Cocaine

 

O mestre da guitarra, Eric Clapton, sem cerimônias, afirmou: She don’t lie, she don’t lie, she don’t lie; Cocaine. A canção foi escrita e lançada por JJ Cale em 1976, mas alcançou o sucesso quando foi gravada por Clapton em seu álbum Slowhan em 1977. A letra sobre o vício em drogas é algo que Clapton conhece muito bem. Como ele mesmo explicou em sua autobiografia, quando gravou essa canção ele tinha largado um sério vício em heroína e compensado a abstinência com álcool e cocaína. Ele acreditava que poderia controlar o vício e largá-lo quando quisesse, mas ele simplesmente não queria, e é por isso que conseguia cantar tão objetivamente sobre uma droga que o consumia. Quando Clapton finalmente largou as drogas e o álcool, teve que reaprender a fazer música sóbrio, o que foi uma grande transição, já que tudo parecia ser muito difícil. Ele também percebeu como o seu vício prejudicou ele mesmo e  as pessoas ao seu redor, e passou a ajudar os outros a superarem seus vícios – em 1998, abriu o centro de reabilitação Crossroads, em Antigua. Clapton chegou a remover essa música de seu setlist porque acreditava que ela passava a mensagem errada sobre o uso de cocaína. Com o passar dos anos, o músico adicionou à letra o trecho “that dirty cocaine” ao refrão e voltou a apresentá-la ao vivo.

3. Black Sabbath | Sweet leaf

 

Uma apaixonada declaração de amor. Essa descrição soaria estranha para uma canção do Black Sabbath, ainda mais com direito a súplicas como: When I first met you, didn’t realize, I can’t forget you or your surprise. Mas, como a declaração de amor em questão é feita para a Cannabis Sativa, tudo faz sentido – engana-se quem achava que a letra era uma homenagem à Sharon. Sweet Leaf é uma canção do álbum de 1971: Master of Reality. A canção é um hino ao uso recreativo da maconha, o nome vem de um maço de cigarros que o baixista Geezer Butler comprou em Dublin, que chamava o tabaco como “a erva doce”. A banda usava muita marijuana e outras drogas naquela época, e todos os membros da banda participaram da composição de “sweet leaf”, que mais tarde se tornaria uma nova gíria para maconha. A tosse inicial presente na gravação de estúdio é de Tony Iommi após engasgar-se com a fumaça. Há quem diga que esta é a música precursora do Stoner Rock acho que é por isso que sou tão apaixonada por ela. O riff de guitarra foi tirado de Hungry Freaks, Daddy de Frank Zappa & The Mothers of Invention. Este riff também pode ser ouvido no final de Give It Away do Red Hot Chili Peppers e também é a base para a música Rhymin’ and Stealin dos Beastie Boys.

2. Neddle in the hay – Elliot Smith

 

Em uma entrevista para a Q magazine, Elliott Smith disse que Neddle in the hay “é uma canção sobre fazer sexo com a sua mãe”. Apesar da afirmação irônica, a faixa de abertura de seu segundo disco – o autointitulado Elliott Smith, lançado em 1995 – pode ser interpretada como uma reflexão de como as drogas tiveram um impacto sobre sua vida. Elliott abusava do álcool e outras substâncias chegando a gastar até R$1.500 reais por dia com heroína e crack e também apresentava sinais psiquiátricos graves, como paranoia, falando frequentemente sobre suicídio e overdoses. O som entorpecedor e repetitivo do violão, a voz frágil e confessional, o verso you ought to be proud that I’m getting good marksss cantado por Smith com um “s” prolongado, imitando o sibilar da heroína cozinhando em uma colher, tudo torna a canção agonizante e ao mesmo tempo bela. Neddle in the hay ficou na 27ª posição da lista do Pitchfork das 200 melhores faixas dos anos 90, e também entrou na trilha sonora do filme The Royal Tenenbaums (2001), em uma cena de suicídio. Vale lembrar que Elliott foi encontrado morto, aos 34 anos, em seu apartamento com duas facadas em seu peito. Aparentemente suicídio, mas sabe como morte de rockstar é tudo mistério.

1. The Velvet Underground | Heroin

 

Heroin, be the death of me
Heroin, it’s my wife and it’s my life, ha-ha
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then I’m better off than dead

Sem condenar ou fazer apologia à droga, a canção descreve o ponto de vista de alguém que está se drogando. A letra narra um usuário que, na tentativa de fuga de uma cidade e realidade que só oprimem, encontra na heroína a única alternativa melhor que a morte. Lançada em 1967 no álbum de estreia The Velvet Underground & Nico, a letra foi composta por Lou Reed em 1964. Sobre ela, Reed afirmou: “Eu quis escrever essa música para exorcizar qualquer tipo de escuridão ou elemento auto-destrutivo dentro de mim”. A melodia hipnótica é em total sincronia com a letra: ela começa lenta e vai aumentando gradualmente seu ritmo conforme o narrador tem o pico da droga, pontuado pela guitarra de John Cale e a bateria apressada e mais alta. A música, então, diminui ao ritmo original e repete o mesmo padrão antes de terminar. Heroin entrou na 455ª posição no ranking da Rolling Stone, em 2004, das 500 Melhores Canções de Todos os Tempos. O Velvet Underground tem outras canções sobre drogas, como I’m Waiting For The Manque narra um junkie, em Harlem, esperando por seu drug dealer de heroína com 26 dólares na mão. “The Man” é o traficante. Reed já declarou que “tudo sobre essa canção é verdade, exceto o preço”.

 Bônus. E-Talking | Soulwax

 

Encabeçado por David e Stephen Dewaele, o Soulwax é uma banda belga de rock alternativo/eletrônica cuja canção E Talking, presente no álbum Any Minute Now de 2004, alcançou a 27ª posição na Parada de Singles do Reino Unido em 2005. O clipe da canção se passa em um clube noturno e mostra o ponto de vista de vários frequentadores da boate sob o efeito de diferentes tipos de substâncias, passando por um verdadeiro “alfabeto de drogas“: começando com A para Ácido e terminando em Z para Zoloft. A circulação do vídeo foi restrita ao horário noturno – não preciso comentar o porquê.

 

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