Sobre Hangar 110 e “a cena”

Passaram-se 18 anos desde que o CPM 22 deu os primeiros acordes já ouvidos no palco do Hangar 110, templo do rock underground paulistano. Naquela noite, local e banda ainda não tinham o sucesso que alcançaram com a explosão do rock nacional nos anos 2000. Para o Hangar, a história chegará ao fim: Alemão e Cilmara, casal de donos do local, anunciaram 2017 como última temporada, o que tem gerado uma grande reflexão sobre o que se chama de “a cena”.

A justificativa dada para a decisão é simples: os tempos mudaram. Em comunicado postado na página do Hangar 110 no Facebook, os donos explicaram como a internet, apesar de aproximar as pessoas, acabou distanciando-as fisicamente. A consequência é acabar com o tipo de espírito que marcou o começo da casa. “Hoje, não conseguimos ver uma luz no fim do túnel em relação a isso, pois as bandas estão acabando, e poucas bandas novas seguem esse espírito rock’n roll”.

Alemão montou o Hangar depois de ir à loja de discos de um amigo e ver uma parede lotada de álbuns de bandas brasileiras, todas sem lugar para tocar. Com a chegada dos anos 2000, ficou mais fácil gravar, e as bandas independentes aumentaram consideravelmente. Quando elas começavam a alçar voo, o Hangar apareceu como o local para ajudar a projetá-las. Ou nem isso. Simplesmente o lugar para poder ver um show em companhia dos amigos.

“A relevância que o Hangar 110 tinha no ínicio para as bandas e público, já não existe mais. Há shows em inúmeros lugares e por incrível que pareça, esse também foi um complicador”, explicaram.

Oras, que diabos de “cena” é essa então, que acaba por derrubar o lugar onde ela se fortaleceu?

A cena somos nós. Nós indo ao Inferno, na Augusta, ou ao Carioca Club, em Pinheiros, assistir às bandas que, antigamente, não tocariam em lugar algum. Ou nós aproveitando o Rock na Praça, com shows de graça no centro, ou ainda eventos no Sesc mais próximo ou em casas menores. A cena são os shows pesados no Aquarius Bar, nos confins da Zona Leste, casa que foi inaugurada em 2011 onde, antigamente, não havia tanta opção.

Não é a cena que está morrendo, ela se fortaleceu. Pior para o Hangar, que já não atrai tanta gente ali pra perto do Metrô Armênia.

A cena é o Dead Fish abarrotando a Audio Club pra gravar DVD, é o Eminence vindo de BH para tocar com o Seasmile no Inferno ou o John Wayne e o Worst – dois exemplos de bandas novas – agitando o centrão. É o Sampa Music Fest, na Penha, colocando quatro bandas consagradas e outras 16 – muitas ainda em início de carreira – para tocar no mesmo dia, nos mesmos palcos, com o mesmo equipamento (basicamente).

E a cena, principalmente, somos nós saindo de casa para ir a todos esses lugares, inclusive ao Hangar 110 ao longo de todo 2017. Nós comprando merchandising de bandas que conhecemos no Youtube ou nas sugestões do Spotify. Nós participando ativamente. Isso sim é cena. Você faz parte?

 

Qual Fresno lançou um álbum novo?

É muito interessante a maneira como o Fresno encontrou para variar seu som nos últimos anos. Da banda emo adolescente que ninguém aguenta mais falar ao estágio atual, a banda passou por álbum poderoso (Revanche, 2010), um EP pesado e com letras obscuras (Cemitério das Boas Intenções, 2011), um álbum coeso e com sucessos radiofônicos (Infinito, 2012) e um EP que parecia consolidar essa fase “adulta” da banda (Eu Sou a Maré Viva, 2014). Totalmente diferente, agora lança o A Sinfonia de Tudo Que Há.

Trata-se de um álbum épico, influenciado justamente pela ideia de fazer alguma coisa diferente. Talvez por ter sido feito com calma e sem alarde – só se soube de sua existência dois meses antes de seu lançamento, quando já estava em fase de mixagem -, parece soar exatamente como um produto isolado de qualquer interferência, influência mercadológica ou expectativa. É uma Fresno nova, que causou estranhamento em parte dos fãs e, sinceramente, que deu um passo largo em uma direção pouco explorada antes.

“Eu comecei a escrever músicas em 2013. Tem músicas desse disco que inclusive são de antes. Daí um amigo meu falou em escrever um musical, eu quis escrever um musical, escrevi muitas músicas loucamente e, a partir daí, fiquei com vontade de fazer músicas que contem uma história. Isso não precisa ficar claro, mas eu queria contar uma história, e o disco conta uma história, em ordem”, explicou o vocalista Lucas Silveira, em entrevista ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Como em um musical, as faixas têm bastante presença de orquestra. Algumas delas – como O Ar – são minimalistas, com poucos instrumentos e clima intimista. Em outras, não há sequer refrão. Entre os destaques estão Poeira Estelar, Axis Mundi e Hoje Eu Sou Trovão, esta com a participação especial de Caetano Veloso. Até a forma de cantar é mais épica, em alguns momentos com um lirismo que lembra uma ópera-rock e muitos falsetes.

A impressão que se tem é que foi um álbum composto inteiramente no piano, sem dúvida um dos instrumento mais presentes. Apesar disso, essencialmente, o velho Fresno está lá, com letras com temática profunda, contestando a insignificância  humana diante de um universo que nos reserva sabe-se lá o quê. O melancolia inerente nas letras de Lucas dá as caras constantemente, agora com outra roupagem. Vai ser interessante ver como a banda vai reproduzir tudo isso ao vivo. E se essa nova fase vai se mesclar bem com o restante da obra – essa sim uma peça com contornos épicos em sua história.

 

Ouça A Sinfonia de Tudo Que Há no Spotify

Todos menos eu: Anavitoria

Não se sabia que Tiago Iorc, cantor que tem ganhado cada vez mais visibilidade depois de lançar o ótimo Troco Likes (2015) – e depois do clipe com Bruna Marquezine e da parceria com Sandy, claro – era também um descobridor de talentos. Anavitoria é a nossa primeira prova: um duo formado por Ana Clara Caetano e Vitória Falcão, meninas de Araguaína, no Tocantins. Elas enviaram um vídeo ao cantor e ganharam, na sequência, um EP e um álbum, homônimo e bem recebido.

Tudo isso todo mundo já sabia, menos eu, que descobri o duo nas sugestões do spotify e fiquei muito impressionado com a sensibilidade na hora de escrever as letras. A maioria delas é de Ana Clara, que toca violão e que, a princípio, convidou Vitória para gravar vídeos para o Youtube.

Elas pintam imagens nos versos, como quando cantam “Ei, você que se alojou nos meus olhos e na minha boca, por que não tá aqui?” em Nós. Ou então quando em Singular ela avisa: “mesmo se você brigar, eu te enlaço e não me permito soltar, pro nosso nós não deixar de ser assim: tão singular”.

Aí entra Tiago Iorc produtor, embora assine também algumas faixas no álbum e faça participação especial em Trevo (tu). Ele transformou as meninas, de um duo acústico desses como outros milhões no Youtube, em Pop Rural. A maior parte das músicas tem linha de viola caipira e banjo, e o fato de tocá-las com banda também as descola dessa imagem. Ainda melhor, porque as duas passam ao largo da estética de artistas como Colbie CaillatJason Mraz – talvez um pouco mais para Maria Gadú e Tiê, mas, ainda assim, bem original.

Resumindo, não é pop e não é sertanejo. É, de fato, interessantíssimo, ainda mais porque a cultura sertaneja é parte da vida das duas no Tocantins, enquanto que a cultura pop vem da internet, do Youtube e redes sociais. Pra complementar, as duas cantam muito bem e têm um carisma que é uma mescla de uma suposta ingenuidade juvenil e uma tranquilidade inabalável na hora de executar as músicas.

E além delas, Tiago Iorc? O que mais vem por aí?

Metallica e Lollapalooza

Oras, oras, Metallica no Lollapalooza?

A noticia, anunciada pela organização do festival durante a semana, causou certo estranhamento nos fãs, acostumados a ver o festival, nas duas últimas edições, cada vez mais indie e afastado de rock stars absolutos – principalmente metaleiros – como a banda de Los Angeles. Ao mesmo tempo, levou a uma chuva de comentários nas redes sociais ao melhor estilo “o ingresso é muito caro e eu só quero ver Metallica”. De fato, além do grupo de James Hettfield, apenas o Rancid encarna esse estilo especifico no lineup da edição 2017. Mas, historicamente, essa união não pode ser considerada estranha.

lollapalooza-brasilPrimeiro porque o próprio Metallica já foi headliner do Lollapalooza antes: em 1996, nos Estados Unidos, edição que, por coincidência (ou não) também contou com o Rancid no palco principal, ao lado de nomes como Soundgarden e Ramones. Pesado, certo? Além da versão brasileira do festival, a banda ainda vai liderar as atrações das edições na Argentina e Chile em 2017.

Segundo porque, no Brasil, especialmente, o festival tem essa tradição de colocar rockstars no palco principal: Foo Fighters e Artic Monkeys em 2012, The Killers, The Black Keys e Pearl Jam em 2013 e Muse em 2014. Além de nomes de grande peso que integraram o evento, como Joan Jett, Queens of the Stone Age e Soundgarden.

Ok, é verdade que o Metallica faz destoar um pouco em relação às duas últimas edições, capitaneadas por Jack White e Pharrel Williams, em 2015, e Eminem e Florence + The Machine, no ano passado. Colocar a banda de James Hettfield para tocar é a chance de trazer para o evento um público diferente do que tem sido visto, ainda mais em um ano em que não há edição do Rock in Rio. Não que o Lollapalooza precise disso. O público se mantém agradavelmente alto nos últimos anos, de 160 mil em 2014 para 135 mil em 2015 e novamente 160 mil na última edição – todas realizadas em dois dias de shows.

Vai valer a pena ver o Metallica, é claro. A banda tem colocado o Brasil constantemente em sua agenda, com shows em 2010, 2011, 2013, 2014 e 2015. Desta vez, no entanto, estará em turnê com o novo álbum, Hardwire… to self-destruct, que será lançado em novembro.

Por fim, o que não se pode negar é o preço abusivo do ingresso: R$ 920 (inteira) pelo pass para dois dias de festival. Como ainda não foi definido em quais dias as bandas tocam, os ingressos separados não foram colocados à venda, mas devem sair com valor acima de R$ 460 – e ainda tem taxa de conveniência e de entrega de ingresso, se for o caso. Mais uma vez, o festival será realizado no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, em 25 e 26 de março.

Vale sonhar com o Blink-182 no Brasil?

Se você não é daqueles grandes sonhadores esperançosos, ver o Blink-182 ao vivo no Brasil já deixou de ser algo plausível. Em quase 25 anos de carreira, a banda nunca veio à América do Sul. Tivemos a volta dos grandes festivais, tivemos o dólar a 1 por 1 com o real, “booms” econômicos – e mesmo assim, nunca ocorreu de o grupo californiano se aventurar por essas terras. É difícil prever, mas pode-se dizer que, mesmo nessa nova fase, é improvável vê-los por aqui por alguns motivos.

Trauma de avião
O principal deles é o baterista Travis Baker, que em 2008 sofreu um grave acidente de avião que vitimou quatro pessoas e o deixou severamente machucado. Travis precisou de múltiplas cirurgias e transfusão de sangue após a tragédia nos Estados Unidos. O episódio acabou por reunir o Blink, que havia entrado em hiato em 2005. A banda retomou as atividades em 2009, mas Baker não viajou mais de avião, o que inviabilizou (ou, no mínimo, complicou) shows em locais mais distantes.

Para tocar na Europa, por exemplo, o baterista chegou a viajar de navio. Em 2013, ele recusou participar de uma turnê na Austrália, para onde o itinerário de navios não casava com as datas marcadas. Barker deu sua bênção para a banda levar outro baterista, e assim Brooks Wackerman, ex-Bad Religion e atualmente no Avenged Sevenfold, assumiu o posto. E essa não seria uma possibilidade? Fazer o mesmo para levar o Blink ao Brasil?

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Tom DeLonge
Não. Basicamente porque o Blink demitiu o guitarrista Tom DeLonge após entrar publicamente em atrito em 2015. DeLonge sugeriu que o baixista Mark Hoppus chegou a discutir a saída de Travis Barker em 2014, o que foi prontamente negado. Isso, por si só, é um motivo para não excluir Barker de qualquer performance que seja. Além disso, a banda já está “remendada”, com a entrada de Matt Skiba, do Alkaline Trio, embora muito elogiada. O Blink-182 é um power trio. Não dá para “abrir mão” de um segundo integrante.

Tour americana. E só.
Em abril deste ano, a banda concedeu entrevista à rádio americana KROQ na qual Mark Hoppus anunciou turnê mundial passando “por países onde a banda nunca esteve”. O fansite Action182 repercutiu e anunciou que shows no Brasil em 2017 seriam muito prováveis. Porém, até agora, nada foi confirmado. O Blink atualmente faz uma extensa turnê norte-americana, com muitos dos shows com ingressos esgotados. O último deles está marcado para 7 de outubro. Depois disso, quem sabe. Eu não esperaria de pé.

Especialista em love songs, mas não sabe amar

Você já gostou tanto, tanto de alguém que preferiria nem dormir para não correr o risco de perder um segundo ao lado da pessoa amada? Esse é o mote de I Don’t Wanna Miss a Thing, sucesso do Aerosmith escrito por Diane Warren. Californiana de 58 anos, ela encantou o mundo com a melodia e a letra da música-tema do filme Armageddon (1998). Ela mesmo nunca sentiu algo parecido com isso. Na verdade, Diane Warren não tem um namoro sério desde 1992 e jã ficou pelo menos cinco anos sem sair com alguém. Por que isso é impressionante? Porque Diane Warren é a maior compositora de love songs do mundo.

I Don´t Wanna Miss a Thing é apenas um exemplo. Warren foi indicada ao Oscar sete vezes por músicas que abrilhantaram filmes e mais filmes – Because You Loved Me, de Celine Dion, por exemplo. Por essa música, ela ganhou um Grammy em 1997, além de ter outras oito indicações à premiação. Além disso, foi indicada cinco vezes ao Golden Globe Awards (venceu uma, com You Haven´t Seen The Last Of Me, com interpreção da Cher, em 2011) e, em 2001, foi incluída no Songwritters Hall of Fame. Ela foi a primeira pessoa da história a ter 7 hits na lista da Billboard. Seus royalties rendem US$ 20 milhões por ano (R$ 62 milhões).

Nada do que compôs, no entanto, é baseado em experiências pessoais, verdadeiras, reais.
(dê o play nessa playlist com os maiores sucessos dela!)

“Eu nunca me apaixonei como nas minhas músicas. Eu não sou como uma pessoa normal. Não sou boa em relacionamentos. Eu atraio drama – é a minha parte judia”, disse a compositora, em entrevista ao jornal The Guardian. Isso não significa, no entanto, que tudo seja falso. Warren se define como uma romântica desiludida, então escrever love songs, para ela, é uma forma de escape. “Eu tenho uma boa imaginação. Eu sei como é ter seu coração partido. Eu sei como é sentir algo por alguém. Eu só sou muito estranha para estar em um relacionamento”, explicou.

Ao compor o sucesso do Aerosmith, Diana começa com o verso: “I could stay awake just to hear you breathing”. “Se alguém ficasse me ouvindo respirar a noite toda, eu o jogaria pela janela. De preferência, de uma bem alta. Por que eu iria querer alguém ouvindo minha respiração?”, ironizou.

Diane Warren é a prova de que vivência não é primordial para fazer uma música. É questão de inspiração, mas também de trabalho duro, já que ela passa 12 horas por dia, de segunda a sábado, concentrada nas suas músicas. “Eu posso escrever a melhor música do mundo. No dia seguinte, estou de volta à estaca zero”, explicou. É uma workaholic, direto de seu escritório em Los Angeles, um lugar que, por superstição, nunca foi limpo e para o qual ela mantém restrição total a visitas: ninguém entra.

Mas como fazer essa mulher finalmente se apaixonar? Diane deu dicas, em entrevista ao site The Free Library. “Eu praticamente preciso de uma esposa. Eu não posso ser responsável por cuidar de alguém. Eu sou high mainteinence, não pelo fato de que preciso sempre de alguém comigo, mas porque eu nunca poderia cuidar de alguém. Se eu estivesse com alguém, ele teria que ser warkaholic, fazer suas próprias coisas e não me incomodar”, afirmou. Ok, Parece justo.

PS. Além de inúmeras Love Songs, Diane Warren nos brindou com essa clássico:

O que fazer quando sua banda favorita muda

Fomos surpreendidos, na última semana, com o anúncio da saída de Tom DeLonge do Blink 182. Mais interessado em outros assuntos – provavelmente o aplicativo Flo Share, lançado por ele recentemente; e a sua banda paralela Angels & Airwaves -, ele anunciou que não deseja fazer parte dos projetos futuros ao lado de Mark Hoppus e Travis Barker. O Blink mudou de vez, se é que isso já não havia ocorrido. O que fazer?

Para quem é fã de verdade, é sempre complicado ver sua banda sair daquele caminho que, em algum momento, te chamou a atenção e te conquistou. Obviamente que, de forma efetiva, você não pode fazer nada. Não acho que Tom DeLonge gostaria de te ver tocando a campainha da casa dele para uma conversa, também não aceitaria passar por uma intervenção e não seria influenciado por qualquer campanha dos fãs. Provavelmente. A pergunta certa aqui é: como lidar?

Esse texto não fala especificamente sobre o Blink 182 ou sobre o fim das bandas – o Blink provavelmente não acabará, vai até fazer um show em que DeLonge será substituído por Matt Skiba, do Alkaline Trio. Mas, além do término de bandas – ou “hiato por tempo indefinido” – troca de integrantes ou mesmo novos álbuns podem criar questões como essas. Sua banda favorita – de alguma forma – mudou. E agora?

O Não Toco Raul tem algumas sugestões.

1. Nostalgia

Ah, que sentimento maravilhoso. Melancolia e profunda tristeza travestidos de sorrisos breves diante de tantas lembranças. Aquela capa de CD, aquele show na grade, aquele ingresso guardado, versos, refrões e solos. Tudo daquela época em que a banda era tão boa. Pode parecer ruim, mas manter esse sentimento vivo é como manter viva também a banda à qual você tanto se apegou. É uma espécie de legado. O ciclo dela terminou, mas foi bom enquanto durou. Acontece. Só não dá pra chafurdar nesse tipo de situação. Chega de drama.

2. Paciência
Ok, sua banda não acabou, mas não é mais a mesma. Por que, então, não ter um pouco de paciência? Ouvir melhor aquele último álbum e tentar entender o novo conceito, as ideias por trás das mudanças. Ficar atento a entrevistas que possam dar uma luz sobre o que diabos aconteceu com eles. Dar um tempo àquele novo membro para que se adapte à banda e ver se ele consegue se encaixar. Tudo toma tempo.

Há inúmeros exemplos de bandas que mudaram integrantes, conceito, tipo de som e até instrumentos, tudo para melhor – embora essa seja uma avaliação pessoal, questão de gosto. Por exemplo, o Forfun adolescente comparado à banda madura e sólida que é hoje. O Iron Maiden pré-Bruce Dickinson e o salto de qualidade que teve depois que ele substituiu Paul Di’Anno. A entrada de Taylor Hawkins na bateria do Foo Fighters.

3. Relações cortadas
Sem ressentimentos. Se você prefere o Forfun adolescente, o Iron Maiden com os vocais de Paul Di’Anno ou o Foo Fighters pré-Taylor Hawkins, não é obrigado a acompanhar as fases mais recentes depois das mudanças. Muita gente não conhece o trabalho do Raimundos pós-Rodolfo. Muita gente não reconhece o Queen com Adam Lambert nos vocais. E aí, a relação é cortada – podemos até voltar para o item 1, se isso acontecer.

4. Prazer análogo
Enquanto não tínhamos mais o Rage Against the Machinne, podíamos, pelo menos, nos contentar com o Audioslave, essecialmente o RATM sem o Zach de la Rocha, com os vocais de Chris Cornell. Agora que não temos mais o Led Zeppelin, podemos pelo menos ver Robert Plant cantando. Muita gente se contenta há muito tempo em ouvir as músicas do Sepultura com a nova formação da banda, com o Soufly de Max Cavalera ou com a banda dele com seu irmão, Igor, o Cavalera Conspiracy. Não é o Sepultura clássico, mas o prazer de ouvir essas versões pode ser análogo.

O mesmo vale para projetos paralelos, embora eles constantemente não tenham relação musical com o trabalho que originalmente consagrou os artistas. Para ficar em um exemplo já citado: Chris Cornell, em carreira solo, toca músicas novas, do Audioslave e do Soundgarden.

Se Tom DeLonge sair mesmo do Blink 182, não vai ser a relação com os fãs, com a história musical ou mesmo financeira que vai fazê-lo mudar de ideia. Alguns fãs vão chorar as mágoas e dizer: “pra mim, o Blink acabou”. Outros, provavelmente aqueles que aceitaram a transição punk veloz e direto para músicas mais melódicas e baladinhas, vão seguir acompanhando, vão ver no que vai dar.

Se o Não Toco Raul puder dar um conselho diante dessa questão: não desista das bandas que você gosta. Nem dos integrantes delas.

PS. Fica o nosso conselho também para o Blink 182: Stay Togheter For The Kids.

Axé, A Origem

Há um ano, escrevi neste blog um texto mostrando como o Carnaval é business, partindo de seu maior hino: We Are Carnaval, música composta pelo publicitário Nizan Guanaes. Em 2015, a indústria carnavalesca (especialmente na Bahia) vai lucrar muito – mais uma vez. O axé, estilo que simboliza a folia no nordeste, completa 30 anos de sua criação formal. Foi uma invenção mercadológica na mesma linha apresentada no outro texto, mas que vai um pouco além: o axé ainda luta para se definir entre suas origens tão diversas e suas manifestações mais arraigadas na cultura local.

O ano de criação do axé é 1985 porque é quando foi lançada Fricote, de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, aquela da “nega do cabelo duro que não gosta de pentear“. Uma mistura de estilo muito influenciada por ritmos caribenhos, a música estourou no Brasil todo e começou a chamar a atenção com essa tendência que já era expressada no nordeste por muitos artistas. Por deboche, o jornalista Hagamenon Brito – que chamava Luiz Caldas de “Michael Jackson Tupiniquim” – começou a se referir à tal de “axé music”. E o termo pegou.

Então, o que é axé? Originalmente, simboliza “força” nas rodas de capoeira, os assentamentos de orixás distribuídos  nas cerimônias do candomblé ou, na forma mais popularesca, um sentimento bom. É tipicamente baiano; e esse é o único aspecto que mantém no mesmo balaio todos os artistas identificados com esse estilo. Quando essa denominação pegou, o axé virou fenômeno e se espalhou pelo Brasil de forma permanente. Virou business, claro. E, 30 anos depois, continua dando muito retorno, especialmente nessa época de Carnaval.

“É uma necessidade mercadológica. As empresas precisam rotular pra vender em grande quantidade. Se for fragmentar isso fica difícil pra o consumidor comprar”, explicou Luiz Caldas ao site Lelynho.com, especializado, inclusive, em negociar pacotes para folias carnavalescas por todo o Brasil. “O axé music é só mesmo um nome que se dá a um caldeirão onde cabe tudo. Nós, baianos, sabemos quando um cara toca alguma coisa ‘ah, isso é um samba-duro’. Aí daqui a pouco o cara toca alguma coisa e aí você diz ‘isso é um Ijexá’. Mas para o turista é axé music. Então pra mim é melhor ainda, que venham todos”, complementou.

luizcaldasAxé é samba-duro, Ijexá, Deboche, Merengue, Galope, Samba-Reggae, uma infinidade de gêneros semelhantes – de origem africana e influência caribenha – que já eram tocados e dançados pelas ruas de Salvador e dali saíram para os blocos. As dancinhas coreografadas também são uma característica importante em todos os casos. É a verdadeira folia, que mudou de vez a forma como o Carnaval era brincado na Bahia, com trios-elétricos e blocos de música instrumental, com fantasias ainda chamadas “mortalha”.

Se analisarmos o estilo, as letras e a temática, vai ser difícil dizer que Olodum e Ivete Sangalo estão debaixo do mesmo guarda-chuva musical. O mesmo para Araketu e É o Tchan, Luiz Caldas e Parangolé. As vertentes são tantas e com tantas especificidades. Mas o axé, como estilo único, ganhou força. “Nem a bossa-nova nem qualquer outra coisa, nem a Tropicália, tudo isso, ninguém nunca vendeu tanto disco quanto a gente vende e fez tanta alegria quanto a gente faz”, afirmou Caldas. Funcionou – e funciona – como business, principalmente.

E isso não quer dizer que o axé não seja legítimo. Percebem a ironia? Como produto, o axé se destaca e se sustenta, mas também se generaliza. Mas na sua individualidade, é a expressão do samba, do rock, do reggae baiano, um estilo transformado e aperfeiçoado, que pode ser extremamente rebuscado na sua forma de tocar ou extremamente eficiente, mesmo quando simples. O axé é realmente uma coisa muito louca, difícil de entender. Mas faz sucesso e respeita as próprias origens.

Não Pod Raul #03 – Rival Sons

Olá!

Essa semana o Não Pod Raul traz uma das bandas favoritas de todos os tempos dos últimos anos dos editores desse podcast: Rival Sons. Nossa paixão por esses mancebos começaram há pouco mais de 2 anos, depois de um fortuito clique em um player de youtube em um post no Update or Die. O Rival Sons possui um público muito fiel e mesmo longe do mainstream, pode pintar é nome certo aqui no Brasil no festival Monsters of Rock.   Se você ainda não conhece, está aqui uma boa oportunidade de descobrir uma banda nova com essa playlist.

Esse é o segundo episódio do Não Pod Raul, o podcast do blog Não Toco Raul. Nele, Eder, Tadeu e convidados farão semanalmente uma playlist de um artista, banda ou tema, composta por 10 músicas. Simples, não?

A intenção é formar a playlist definitiva – daquele momento, de todos os tempos, da última semana – do artista, banda ou tema. Mande sua sugestão de tema pra nós, a sua playlist preferida e onde erramos e acertamos nas escolhas das músicas.

Até a próxima quarta-feira!

Clique aqui para fazer o download

> 00:00:00 – Tema
> 00:06:15 – Playlist
> 00:53:57 – Comentário e P.Diddys
> Duração do episódio: 01:02:05

 

Gostou da playlist? Odiou? Tem alguma sugestão de playlist bacanuda?
Manda pra gente nas xoxó media ou envia um email para contato@naotocoraul.com.br

 

Músicas neste episódio:

  1. Face of Light
  2. Soul
  3. Destination On Course
  4. Pressure And Time
  5. Memphis Sun
  6. Where I’ve Been
  7. You Want To
  8. Only One
  9. Get What’s Coming
  10. Keep On Swinging

 

A busca pelos tickets!

 

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Taylor Swift confronta, ignora ou usa o Spotify?

Não houve trocadilho musical que impedisse a decisão bombástica da cantora americana Taylor Swift, que no início da semana passada retirou todo o seu catálogo do serviço de streaming Spotify. A empresa postou playlist engraçadinha pedindo a volta dela e usou nomes e trechos de diversas músicas, em mensagem postada: Taylor, we were both young when we first saw you, but now there’s more than 40 million of us who want you to stay, stay, stay. It’s a love story, baby, just say, Yes. Não adiantou. Todos sabem o motivo dessa manobra. Só não se sabe ainda os efeitos.

Taylor já vinha sinalizando que tomaria ação contra serviços como o Spotify. Em entrevista recente ao Wall Street Journal, afirmou que música não deveria ser gratuita porque “é arte, e arte é importante e rara, e coisas raras e importantes devem ser valorizadas”. Ela não concorda com os direitos pagos pela empresa, entre US$ 0,006 e US$ 0.0084 por execução. Se a cantora recebe a maior cota, você teria de ouvir uma música 120 vezes para render a ela US$ 1. Taylor Swift tirou sua obra do alcance de 40 milhões de pessoas – cerca de 10 milhões que pagam valores mensais – em 58 países.

Primeiro, Taylor retirou de lá o álbum mais recente, 1989 (2014). Esse é o primeiro a vender 1,3  milhão de cópias desde 2003, quando Eminem conseguiu esses números com o The Eminem Show. Ele desafia os números decadentes da indústria musical na última década. E mais: de acordo com o jornal britânico The Guardian, 25% dos usuários do Spotify já ouviram alguma música da cantora americana, sendo que ela aparece em 19 milhões de playlists e seu single mais recente, Shake It Off, era o número 1 em streamings. Mesmo assim, ela na sequência tirou tudo.

“O que eu posso dizer é que a música está mudando tão rápido, e o cenário da indústria musical em si muda tão rapidamente, que tudo que é novo, como o Spotify, me parece um grande experimento. E eu não estou disposta a contribuir com o trabalho da minha vida com um experimento que eu sinto que não recompensa de forma justa escritores, produtores, artistas e criadores de música. Eu simplesmente não concordo com a perpetuação da noção de que música não possui valor e deveria ser gratuita“, explicou a cantora, em entrevista ao Yahoo! Music na terça passada.

Parece justo, Taylor. Mas até onde você vai levar isso?

Afinal de contas, serviços como o Spotify estão custando dinheiro a artistas como Taylor Swift: de acordo com a revista americana Money, uma pesquisa da MIDiA Reserch determinou que 23% dos usuários de streamings costumavam comprar mais de um álbum por mês. Isso significa que agora a cantora vai aumentar ainda mais os números de vendas? Não. E essa é a questão. Se os fãs não piratearem os álbuns, vão simplesmente recorrer ao Youtube, Grooveshark, SoundCloud, Pandora, LastFM, Rdio ou qualquer outro modelo semelhante e continuar ouvindo suas canções. E talvez pagando ainda menos.

taylor1989A não ser que a cantora apareça com alguma alternativa revolucionária, a decisão vai se limitar a não compactuar com algo que com o que ela não concorda – o que é mais do que justo, mais uma vez. Uma hipótese é Taylor Swift estar usando seu absurdo potencial de mercado para produzir mudanças nesse sistema de remuneração que julga incorreto. Essa hipótese é reforçada pela notícia de que o iTunes deve lançar um serviço de streaming para fazer frente ao Spotify. A cantora deverá ser procurada. E se aceitar, as milhões de pessoas que ouviram suas músicas poderão migrar de programa.

Se nada mudar, o Spotify vai sobreviver sem Taylor Swift da mesma forma como sobrevive sem Beatles, AC/DC e The Black Keys, entre outros artistas que não liberam sua obra para o serviço. Se na semana que vem ela desistir da decisão e recolocar as músicas à disposição, já vai ter saído no lucro, de qualquer maneira. Tem sido apontada por publicações do mundo inteiro como uma das artistas mais poderosas da indústria musical, obrigou essa discussão a ocorrer e ganhou mais mídia do que jamais conseguiria no Spotify. O jornal The Guardian até relacionou o anúncio a uma posição feminista da artista. Isso, Shake it Off jamais renderia.

PS1. Já falamos de Taylor Swift aqui antes e de maneira não tão lisonjeira. Leia

PS2. SE ESSE ÁLBUM REALMENTE SAÍSSE EM 1989, SERIA ASSIM: