Intimismo agridoce

 
Noite de sábado no Tom Jazz, em São Paulo. Pitty anuncia a música “Ne Parle Pas” e explica que um dos grandes desafios do projeto Agridoce, no qual toca ao lado do guitarrista Martin Mendezz, é cantar em francês. Acompanhados de dois percursionistas – um deles com samplers e sequenciadores -, ela começa a canção, mas não vai além do refrão depois de seguidos erros. “Para que eu errei, errei tudo aqui”, pede a cantora, aos risos. O público aplaude e vibra, e ali se estabelece uma forte ligação entre os fãs e a cantora. É possível sentir o intimismo do Agridoce.

Pitty chant en français (Pitty cantando em francês, segundo o Google)

Dezenas e dezenas de bandas e músicos já lançaram projetos intimistas, mas é difícil entender a dimensão que isso tem na obra de um artista. Intimismo, na definição artística, é a expressão dos mais íntimos sentimentos da alma. Com o Agridoce, a coisa parece funcionar exatamente nesse sentido: Pitty e Martin fizeram tudo o que não se encaixaria no projeto principal, que leva o nome da cantora. No palco, eles transbordam feeling, e é impressionante o peso da figura da Pitty. Até quando erra.

“Eu acho que se a gente errou era porque não tinha que tocar essa música. É sério, eu acredito nessas coisas”, afirma depois de paralisar a música. A plateia encara o discurso como uma desculpa esfarrapada e bem-humorada. “Eu acredito no poder da superação”, rebate Martin. “Então vamos fazer um negócio ninja: vamos pegar direto do refrão. É um, dois, três e…”. E aí tudo se encaixa, o público se cala e a música vai até o final, cada vez mais intimista, como se os poucos presentes no Tom Jazz pudessem sentir a dificuldade de cantar em francês.

Pitty, com Agridoce, no Tom Jazz em maio de 2012 – foto de Leo Mascaro

A conclusão é que o intimismo do Agridoce funciona perfeitamente. O Tom Jazz é pequeno, e o público se dispõe confortavelmente sentado em mesas consumindo e acompanhando a apresentação em um palco bem pequeno. São 30 mesas, com mais alguma em um mezanino com visão não tão privilegiada. Onde quer que você esteja, consegue sentir a intensidade de músicas como “Say”, “130 anos” e da mais conhecida “Dançando”, por exemplo. Em momento algum há referência à Pitty de “Máscara”, “Admirável Chip Novo” e “Equalize”, e isso é muito bom.

Um ponto curioso é o fato de boa parte do som ser feito por samplers e sequenciadores – backing vocals, inclusive, o que não chega a dar a sensação de playback. Fora do repertório, apenas a música “Lágrimas Pretas”, de outro projeto intimista, o 3 na Massa, no qual Rica Amabis (Instituto), Dengue e Pupilo (Nação Zumbi) compuseram músicas para serem cantadas por mulheres. Ela se encaixa bem no repertório. O show do Agridoce é curto, pouco mais de uma hora, o que causa lamentações da platéia. “Pois é, eu também acho. Mas por enquanto essas são as músicas que a gente tem”, diz Pitty. Na verdade, não há como reclamar, vale muito a pena.

 
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